



59 minutos e
59 segundos
59 minutes and 59 seconds
59 minutos e 59 segundos (2014-2015) condensa uma operação recorrente na pesquisa dos Irmãos Guimarães sobre Samuel Beckett: menos adaptar uma obra do que converter sua lógica em dispositivo. Aqui, o texto não é matéria para dramaturgia no sentido tradicional, mas motor de um encontro controlado entre fala, atenção e presença. Ao escolher Companhia — peça-chave da trilogia beckettiana dos anos 1980, ao lado de Mal visto, mal dito e Para frente e pior — a performance concentra sua força naquilo que o autor tensiona com obstinação: o pensamento como companhia involuntária, a memória como interlocutora, e a solidão como forma de convivência.
Como indica o próprio procedimento, um relógio marca o tempo em que um performer dialoga com o público sobre Companhia. A cena organiza-se então como uma máquina temporal: um quase-ritual de duração finita, em que o tempo não funciona como contexto, mas como pressão. Ao assumir a conversa como forma (mais do que como “debate” ou mediação), a performance estabelece uma relação direta com o público: não se trata de explicar Beckett, mas de sustentar, junto ao espectador, uma zona de pensamento em movimento. Nesse regime, os textos que ouvimos incidem sobre a recorrente questão da solidão acompanhada — pelo pensamento, pelo sonho, pela lembrança — e pelo estar juntos que não se configura em nada mais do que juntar solidões: sozinhos juntos.
O procedimento central de 59 minutos e 59 segundos é, portanto, a construção de uma experiência em que literatura e presença se contaminam: a palavra beckettiana não aparece como representação, mas como matéria de convivência e risco — aquilo que se compartilha sem se resolver. O rigor do relógio (quase um metrônomo do encontro) ajuda a deslocar a relação com o texto: a cada minuto, o tempo reafirma o limite e, com ele, a precariedade da fala, da escuta e da própria comunhão possível. Ao final, o trabalho afirma sua potência crítica não por narrar uma ideia, mas por instaurar um campo perceptivo: um modo de estar junto em que a companhia não elimina a solidão — apenas a expõe, com delicadeza e precisão, como condição comum.
59 Minutes and 59 Seconds (2014–2015) condenses a recurring operation in the Guimarães Brothers’ research on Samuel Beckett: less an adaptation of a work than a conversion of its logic into a device. Here, the text is not material for dramaturgy in the traditional sense, but the engine of a controlled encounter between speech, attention, and presence. By choosing Company—a key piece in Beckett’s 1980s trilogy, alongside Ill Seen Ill Said and Worstward Ho—the performance concentrates its force on what the author relentlessly strains: thought as an involuntary companion, memory as an interlocutor, and solitude as a mode of coexistence.
As the procedure itself indicates, a clock marks the time during which a performer dialogues with the audience about Company. The scene is thus organized as a temporal machine: a quasi-ritual of finite duration, in which time does not function as context, but as pressure. By taking conversation as form (rather than as “debate” or mediation), the performance establishes a direct relationship with the public: it is not a matter of explaining Beckett, but of sustaining—together with the spectator—a zone of thought in motion. Within this regime, the texts we hear bear upon the recurring question of accompanied solitude—by thought, by dream, by memory—and upon a being-together that amounts to nothing more than the gathering of solitudes: alone together.
The central procedure of 59 Minutes and 59 Seconds is therefore the construction of an experience in which literature and presence contaminate one another: Beckett’s language does not appear as representation, but as matter of coexistence and risk—something shared without being resolved. The rigor of the clock (almost a metronome for the encounter) helps to shift the relationship to the text: with each minute, time reasserts the limit and, with it, the precariousness of speech, listening, and of communion itself. In the end, the work asserts its critical force not by narrating an idea, but by establishing a perceptual field: a mode of being together in which company does not eliminate solitude—it merely exposes it, with delicacy and precision, as a common condition.
Criação
[Conception]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães
Participação
[Performer]
Liliane Rovaris
Fotografia
[Photography]
Emilia Silberstein, Ismael Monticelli