



99 a 1
99 to 1
99 a 1 opera como um gesto radical de tradução formal: em vez de adaptar Beckett no sentido tradicional (encenar personagens, situações, conflitos), a performance desloca o texto para um regime de duração, desgaste e persistência. Ao propor uma leitura contínua de O Inominável, de Samuel Beckett, ao longo de doze horas, o trabalho transforma a literatura em acontecimento e o palco em dispositivo, aproximando-se das tradições da performance e do teatro de resistência — não por discurso, mas por método: insistir onde a atenção vacila, prolongar onde a forma tende a se encurtar, fazer do tempo não um suporte, mas o próprio material da obra.
Em 99 a 1, é realizada uma leitura de doze horas do texto O Inominável em um espaço que pode ser visitado pelo público, cuja iluminação vai diminuindo ao longo das horas, do 100 ao 0, da completa luminosidade até a escuridão total. Essa gradação — quase matemática — funciona como partitura visual do esgotamento: não ilustra o texto, mas o atravessa, impondo uma arquitetura perceptiva que afeta igualmente quem lê e quem assiste. Ao permitir que o público entre e saia a qualquer momento, a montagem desloca a ideia de “acompanhar” para a de “atravessar”: a obra não se oferece como totalidade narrativa, mas como campo contínuo, em que cada espectador encontra o trabalho a partir de um recorte temporal singular.
O procedimento central de 99 a 1 é, portanto, produzir uma experiência em que sentido e presença são constantemente ameaçados: pelo cansaço, pela repetição, pela erosão gradual da luz. Quanto mais o visível se apaga, mais a performance recoloca em jogo a escuta — e mais a palavra beckettiana assume sua dimensão de matéria sonora, respiração, ruído e insistência. Nesse limite, a performance afirma sua potência crítica: sustentar o impasse como prática, fazer do “fim” (a escuridão total, o zero) não um fechamento dramático, mas o ponto em que linguagem, corpo e tempo revelam seu estado extremo — não como efeito, mas como experiência real.
99 to 1 operates as a radical gesture of formal translation: rather than adapting Beckett in the traditional sense (staging characters, situations, conflicts), the performance displaces the text into a regime of duration, erosion, and persistence. By proposing a continuous reading of Samuel Beckett’s The Unnamable over twelve hours, the work transforms literature into event and the stage into a device, drawing closer to the traditions of performance and resistant theatre—not through discourse, but through method: insisting where attention falters, prolonging where form tends to contract, making time not a support but the very material of the work.
In 99 to 1, a twelve-hour reading of The Unnamable takes place in a space that can be visited by the audience, whose lighting gradually decreases over the hours, from 100 to 0, from full brightness to total darkness. This gradation—almost mathematical—functions as a visual score of exhaustion: it does not illustrate the text, but cuts through it, imposing a perceptual architecture that affects both the reader and the viewer alike. By allowing the public to enter and leave at any moment, the staging shifts the idea of “following” into that of “crossing through”: the work is not offered as a narrative totality, but as a continuous field, in which each spectator encounters it through a singular temporal slice.
The central procedure of 99 to 1 is therefore to produce an experience in which meaning and presence are constantly threatened: by fatigue, by repetition, by the gradual erosion of light. The more the visible fades, the more the performance brings listening back into play—and the more Beckett’s language assumes its dimension as sonic matter, breath, noise, and insistence. At this threshold, the performance asserts its critical force: sustaining impasse as practice, making the “end” (total darkness, zero) not a dramatic closure, but the point at which language, body, and time reveal their extreme state—not as effect, but as real experience.
Criação
[Conception]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães
Participação
[Performer]
Emanuel Aragão
Cenografia
[Set Design]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães, Ismael Monticelli
Fotografia
[Photography]
Emilia Silberstein, Ismael Monticelli