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Ato sem palavras II

Act without words II
 

A partir do que Samuel Beckett estabelece em Ato sem palavras II — duas figuras, A (lento, desengonçado, distraído) e B (vigoroso, rápido, preciso), submetidas a ações diferentes porém com a mesma duração —, a montagem de Adriano e Fernando Guimarães (2002-2015) enfatiza o que há de mais desconcertante no mecanismo do texto: a igualdade temporal como provocação ética e filosófica. Mesmo fazendo “mais”, B não vive mais; mesmo fazendo “menos”, A não tem desconto. A peça se estrutura como um relógio cruel, no qual o tempo não recompensa o esforço nem pune a inércia — apenas insiste. Daí emerge uma primeira ironia decisiva: até que ponto temperamento e destino são produtos das obrigações? O espetáculo instala essa dúvida sem explicá-la, e a mantém em suspensão como motor perceptivo: o público é convocado menos a compreender uma história do que a medir (com o corpo e com a atenção) a contradição entre ação e sentido.

 

É nesse horizonte que o trabalho dos diretores escapa deliberadamente de uma leitura “clownesca” ou bufanesca que por vezes ronda o universo beckettiano. Aqui, o contraste entre o lento e o rápido não vira caricatura: vira procedimento. Como não há causalidade narrativa capaz de sustentar psicologias ou biografias, os atores não podem se apoiar em “motivação”; precisam executar com precisão uma sequência de tarefas cotidianas — vestir e tirar a muda de roupa (um terno) e micro-ações de ritual doméstico — como quem testa a pertinência do próprio hábito. Em vez de representar personagens, o elenco opera num regime performativo: o sentido nasce da persistência, do ajuste fino, da repetição que não acumula conquista. A peça se torna, assim, uma máquina de evidenciar o humano como prática: um corpo atravessado por rotinas que parecem necessárias apenas porque retornam.

 

A cenografia do acontecimento é igualmente rigorosa: sobre uma plataforma “violentamente iluminada”, branca, a luz devolvida ofusca os atores, retirando do corpo — que deveria ser o foco — a legibilidade confortável. A luz não funciona como “ambiente”, mas como estrutura dramatúrgica, quase um personagem que regula o modo como vemos e, sobretudo, o quanto deixamos de ver. Esse excesso luminoso produz um teatro de alta exposição em que tudo está à mostra e, ao mesmo tempo, nada se entrega plenamente: a luz organiza a cena como experiência de limite, entre o desejo de controle e a recusa de transparência absoluta — precisamente a zona em que Beckett costuma operar, fazendo do visível um campo de fricção e não de evidência.

 

Na última versão do trabalho (2015), essa lógica se desdobra com ainda mais contundência na presença de uma chuva de areia, que tensiona a cena como elemento material de desgaste, espessura e queda. A areia funciona como uma espécie de contra-luz física: aquilo que insiste em cair, em acumular, em tornar o espaço mais opaco e instável — não para ilustrar um “deserto” ou simbolizar um mundo exterior, mas para tornar sensível a dimensão entropizante da peça: o tempo que se deposita como matéria, o corpo que é lentamente coberto por um resto. Nesse mesmo registro, algumas escolhas específicas intensificam o deslocamento: a substituição do aguilhão sobre rodas por uma campainha redefine o comando (menos violência explícita, mais administração sonora do intervalo — um toque que ordena, encaminha, expulsa os atores para fora do palco e reincide em outras performances da dupla); e o tecido transparente dos sacos revela o corpo em repouso enquanto o outro age, produzindo uma dialética visual entre mostrar/esconder, dentro/fora. No conjunto, Ato sem palavras II, nas mãos de Adriano e Fernando, não é uma comédia física sobre dois temperamentos, mas uma construção meticulosa sobre o tempo como forma de poder, sobre o cotidiano como ritual sem garantia — e sobre o corpo como última instância de pensamento quando já não há fala possível.

From what Samuel Beckett establishes in Act without words II—two figures, A (slow, gawky, distracted) and B (vigorous, fast, precise), subjected to different actions yet with the same duration—Adriano and Fernando Guimarães’s staging (2002–2015) foregrounds what is most unsettling in the text’s mechanism: temporal equality as an ethical and philosophical provocation. Even by doing “more,” B does not live more; even by doing “less,” A receives no discount. The piece is structured like a cruel clock, in which time neither rewards effort nor punishes inertia—it simply persists. From this emerges a first decisive irony: to what extent are temperament and fate products of obligation? The performance sets this question in motion without explaining it, holding it in suspension as a perceptual engine: the audience is asked less to understand a story than to measure (with body and attention) the contradiction between action and meaning.

 

It is within this horizon that the directors’ work deliberately escapes a “clownish” or buffoonish reading that sometimes haunts Beckett’s universe. Here, the contrast between the slow and the fast does not turn into caricature; it becomes procedure. Since there is no narrative causality capable of sustaining psychologies or biographies, the actors cannot rely on “motivation”; they must execute with precision a sequence of everyday tasks—putting on and taking off a change of clothes (a suit) and micro-actions of domestic ritual—as if testing the pertinence of habit itself. Rather than portraying characters, the cast operates within a performative regime: meaning arises from persistence, fine adjustment, repetition that accumulates no conquest. The piece thus becomes a machine for making the human visible as practice: a body traversed by routines that seem necessary only because they return.

 

The scenography of the event is equally rigorous: on a white platform “violently lit,” the reflected light dazzles the actors, stripping the body—supposedly the focus—of comfortable legibility. Light does not function as “atmosphere,” but as dramaturgical structure, almost a character that regulates how we see and, above all, how much we fail to see. This luminous excess produces a theatre of hyper-exposure in which everything is on display and yet nothing fully yields itself: light organizes the scene as a limit-experience, between the desire for control and the refusal of absolute transparency—precisely the zone in which Beckett tends to operate, making the visible a field of friction rather than evidence.

 

In the last version of the work (2015), this logic unfolds even more forcefully through the presence of a rain of sand, which strains the scene as a material element of wear, thickness, and fall. The sand functions as a kind of physical counter-light: something that keeps falling, accumulating, making the space more opaque and unstable—not to illustrate a “desert” or to symbolize an outside world, but to render palpable the entropic dimension of the piece: time depositing itself as matter, the body slowly covered by residue. Within the same register, specific choices further intensify this displacement: replacing the wheeled goad with a bell redefines the command (less explicit violence, more sonic administration of the interval—a ring that orders, directs, expels the actors offstage, and returns in other works by the duo); and the transparent fabric of the sacks reveals the body at rest while the other acts, producing a visual dialectic between showing/hiding, inside/outside. Taken together, Act Without Words II, in Adriano and Fernando’s hands, is not a physical comedy about two temperaments, but a meticulous construction about time as a form of power, about the everyday as a ritual without guarantee—and about the body as the final instance of thought when speech is no longer possible.

Texto

[Text]
Samuel Beckett

Tradução

[Translation]
Bárbara Heliodora

Direção e cenografia

[Direction and set design]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães

Elenco

[Cast]
Alessandro Brandão, Emanuel Aragão, Marcello Antony, Leandro Menezes, Mateus Ferrari, William Ferreira

Iluminação

[Lighting design]
Dalton Camargos

Figurino [Costume design]
Ana Miguel

Fotografia [Photography]
Dalton Camargos, Ismael Monticelli, Lenise Pinheiro

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