



Caixa de guerra
War box
Caixa de guerra (2019) é um monólogo que revisita passagens decisivas — e muitas vezes apagadas — da história do Rio de Janeiro, do século XVI ao período Vargas. O espetáculo parte de um gesto claro: deslocar o foco do “grande evento” para aquilo que costuma permanecer à margem da narrativa oficial. Um exemplo marcante surge logo nas primeiras sequências, quando a peça retorna ao episódio pouco registrado em livros de História: em 1550, cinquenta indígenas tupinambás foram forçados a encenar, em Paris, uma espécie de “peça documental” diante da corte francesa — acontecimento que funciona aqui como disparador para uma investigação mais ampla sobre construção, repetição e manipulação das versões históricas.
A dramaturgia se organiza como recomposição de episódios emblemáticos, mas sem a pretensão de reconstituí-los como aula ou reencenação realista. O que se dá em cena é um trabalho de montagem: fragmentos históricos e imagens são rearranjados num percurso que expõe como cada época “conta” a cidade segundo interesses específicos. Ao privilegiar personagens anônimos e fatos secundarizados, o espetáculo não busca corrigir a História, mas tornar visível seu caráter seletivo, evidenciando o quanto certos modos de narrar sustentam estruturas persistentes — desigualdade, apagamento, violência colonial — que atravessam o presente. A crítica do trabalho, portanto, opera pelo recorte: ao escolher o que olhar, a peça revela o que foi deixado fora.
Um dos procedimentos mais potentes é a forma como o solo assume uma lógica próxima à do desfile de escola de samba, reorganizando quatro séculos em “fases” que funcionam como alas, num encadeamento não necessariamente linear, mas profundamente rítmico e associativo. Essa aproximação com o carnaval não aparece como decoração, e sim como estrutura dramatúrgica: o espetáculo trabalha com a ideia de que a memória coletiva se constrói também por repetição, canto, percussão, encadeamento de quadros e reapresentação pública. Não por acaso, o episódio dos tupinambás encenados na França viria a se tornar enredo de carnaval (Imperatriz Leopoldinense, 1994), e essa passagem entre documento histórico e imaginação popular ajuda a peça a tensionar permanentemente o limite entre arquivo e mito.
O espetáculo não tenta “explicar o Rio”; ele propõe um modo de atravessá-lo, expondo camadas e recalques por meio de uma presença cênica que alterna narração, corpo e ritmo. Assim, o que está em jogo não é apenas recontar fatos, mas mostrar como certas imagens do passado continuam trabalhando o presente — e como, ao reinterpretá-las, abre-se um espaço para pensar a história não como monumento, mas como disputa permanente de versões.
War Box (2019) is a monologue that revisits decisive—and often erased—episodes in the history of Rio de Janeiro, from the sixteenth century to the Vargas era. The performance is driven by a clear gesture: shifting the focus from the “major event” to what tends to remain at the margins of official narratives. A striking example appears in the opening sequences, when the piece returns to an episode rarely recorded in history books: in 1550, fifty Tupinambá Indigenous people were forced, in Paris, to perform a kind of “documentary play” before the French court—an event that here serves as the catalyst for a broader investigation into the construction, repetition, and manipulation of historical narratives.
The dramaturgy is structured as a recomposition of emblematic episodes, yet without the intention of reconstructing them as a lesson or as realist reenactment. What unfolds onstage is an act of montage: historical fragments and images are rearranged into a trajectory that reveals how each era “tells” the city according to specific interests. By foregrounding anonymous figures and sidelined events, the piece does not seek to correct History, but to make visible its selective character, showing how certain ways of narrating uphold persistent structures—inequality, erasure, colonial violence—that continue to shape the present. The work’s critical force, therefore, operates through its framing: by choosing what to look at, the performance reveals what has been left out.
One of its most powerful procedures lies in how the solo performance adopts a logic akin to a samba school parade, reorganizing four centuries into “phases” that function like sections of a procession, in a sequence that is not necessarily linear but deeply rhythmic and associative. This proximity to carnival does not appear as decoration, but as dramaturgical structure: the performance works from the idea that collective memory is also built through repetition, song, percussion, the linking of scenes, and public re-presentation. Not by chance, the episode of the Tupinambá staged in France would later become the theme of a carnival parade (Imperatriz Leopoldinense, 1994), and this passage between historical document and popular imagination helps the piece continuously trouble the boundary between archive and myth.
The performance does not attempt to “explain Rio”; it proposes a way of moving through it, exposing layers and repressed histories through a scenic presence that alternates narration, body, and rhythm. What is at stake, then, is not merely the retelling of facts, but the demonstration of how certain images of the past continue to operate in the present—and how, by reinterpreting them, a space opens up to think of history not as monument, but as an ongoing dispute of versions.
Texto
[Text]
Adriano Guimarães, Denise Stutz, Ismael Monticelli
Direção
[Direction]
Adriano Guimarães
Elenco
[Cast]
Denise Stutz
Cenografia
[Set design]
Adriano Guimarães, Ismael Monticelli
Iluminação
[Lighting design]
Adriano Guimarães, Rodrigo Emanuel
Fotografias
[Photography]
Renato Mangolin