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Catástrofe

Catastrophe

Catástrofe (2002–2011) é uma peça curta sobre a criação artística — e, em uma leitura ampliada, sobre a própria criação do homem. O ponto de partida é a situação de um ensaio — Beckett, mais uma vez, em chave abertamente metalinguística. O público acompanha um homem, designado como Protagonista, de pé sobre um armário, sendo progressivamente moldado pelos comandos de uma diretora.

 

Na encenação de Adriano e Fernando Guimarães, o que antes era apenas um bloco preto — elemento que, originalmente, disparou a aproximação dos artistas com a obra de Samuel Beckett — transforma-se nesse armário. A decisão de colocar uma atriz no papel da direção desloca a configuração prevista na dramaturgia original e introduz, ainda que de modo não panfletário, uma inflexão decisiva no campo das relações de poder. Se em Beckett o diretor é homem e a assistente é mulher, aqui a operação tensiona, por inversão, os regimes de dominação e hegemonia que atravessam a história da arte.

 

Manipulado segundo a vontade criativa da direção, o Protagonista não fala e não se move senão por força externa. Sua presença é conduzida, ajustada, esculpida em cena. O espetáculo se insere, ao lado de Um Pedaço de Monólogo e Rascunho para Teatro II, no conjunto de investigações dos artistas sobre as mutações do estatuto do ator em Beckett — e, com ele, sobre os próprios conceitos de ação, personagem, gestualidade, presença cênica e protagonismo.

 

Pode-se sugerir que um dos exercícios centrais do ator beckettiano seja lidar com a imposição do presente: submeter-se ao controle das materialidades que configuram sua relação com o tempo. Nesse regime, a atuação é atravessada por um deliberado ressecamento — um esvaziamento de excessos expressivos, virtuosismos e ilustrações declamatórias. Esse princípio, incorporado como peça que faltava no quebra-cabeça, passa a contaminar de modo decisivo as proposições cênicas dos diretores.

Catastrophe (2002–2011) is a short piece about artistic creation—and, in an expanded reading, about the creation of humankind itself. Its point of departure is the situation of a rehearsal—Beckett, once again, in an overtly metalinguistic key. The audience follows a man, designated as the Protagonist, standing atop a wardrobe, progressively shaped by the commands of a female director.

 

In the staging by Adriano and Fernando Guimarães, what was once merely a black block—an element that originally sparked the artists’ engagement with the work of Samuel Beckett—becomes this wardrobe. The decision to cast an actress in the role of the director displaces the configuration established in the original dramaturgy and introduces, albeit without didacticism, a decisive inflection in the field of power relations. If in Beckett the director is male and the assistant female, here the inversion places pressure on the regimes of domination and hegemony that traverse the history of art.

 

Manipulated according to the director’s creative will, the Protagonist neither speaks nor moves except through external force. His presence is guided, adjusted, sculpted on stage. Alongside A Piece of Monologue and Rough for Theatre II, the work forms part of the artists’ broader investigations into the mutations of the actor’s status in Beckett—and, with it, the very concepts of action, character, gesture, scenic presence, and protagonism.

 

One might suggest that a central exercise of the Beckettian actor is to confront the imposition of the present: to submit to the control of the material conditions that configure their relation to time. Within this regime, performance is marked by a deliberate drying out—an emptying of expressive excess, virtuosity, and declamatory illustration. This principle, incorporated as the missing piece of a puzzle, comes to decisively permeate the directors’ scenic propositions.

Texto

[Text]
Samuel Beckett

Tradução

[Translation]
Bárbara Heliodora

Direção e cenografia

[Direction and set design]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães

Elenco

[Cast]
Ana Paula Braga, Carol Nemetala, Catarina Accioly, Marcello Antony, Michelly Scanzi, Murilo Grossi, Nathalia Melo, Otávio Salas, Valéria Rocha, William Ferreira

Iluminação

[Lighting design]
Dalton Camargos

Figurino

[Costume design]
Ana Miguel

Fotografia

[Photography]
Dalton Camargos, Lenise Pinheiro, Thiago Sabino

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