

Nada se move
Nothing moves
Em Nada se move (2013-2018), o ensaio é apresentado como performance: uma situação construída para deslocar a atenção do olhar para a escuta e para a imaginação corporal. Em uma sala com cadeiras dispersas, o público é conduzido à escuridão total. O que se instala, a partir daí, é um pacto específico: a obra se realiza menos como imagem e mais como acontecimento, ativando um espaço compartilhado em que o visível é deliberadamente suspenso.
No escuro, a performer circula entre as pessoas e descreve o ambiente ao mesmo tempo em que narra os movimentos que executa. Essa operação simples — mover-se e dizer o próprio mover-se — produz uma coreografia verbal que reorganiza a percepção do público: o corpo não é visto, mas é continuamente reconstruído por meio de indícios (respiração, tropeços, aproximações, toques eventuais). O espaço torna-se uma espécie de mapa instável, refeito a cada deslocamento, e a cena se dá como tensão entre presença física e ausência de imagem.
Ao acoplar movimento e relato, a performance faz da narrativa um campo de instabilidade. Histórias pessoais se insinuam, interrompem-se, retornam; camadas narrativas se acumulam sem convergir para um centro explicativo. Quando a performer esbarra em alguém, o incidente não funciona como acidente externo ao trabalho, mas como motor dramatúrgico: o encontro corporal passa a ser também matéria de enunciação — e a obra explicita como a percepção do outro pode se converter rapidamente em interpretação, julgamento, fantasia.
No final, quando a voz desaparece sem aviso, a performance conclui seu procedimento com rigor: não oferece fechamento narrativo, mas devolve o público ao próprio corpo e ao próprio estado de alerta. O silêncio não é um descanso, mas um prolongamento da cena — um resto de presença que insiste. Nada se move opera, assim, como um dispositivo de percepção: ao escurecer a imagem e tornar o corpo invisível, produz uma experiência em que movimento e sentido não se estabilizam, apenas atravessam.
In Nothing moves (2013–2018), the rehearsal is presented as performance: a situation constructed to shift attention from sight to listening and to bodily imagination. In a room with chairs scattered throughout, the audience is led into complete darkness. From that point on, a specific pact is established: the work unfolds less as image and more as event, activating a shared space in which the visible is deliberately suspended.
In the dark, the performer moves among the audience and describes the environment while narrating the movements she executes. This simple operation—moving and speaking one’s own movement—produces a verbal choreography that reorganizes the audience’s perception: the body is not seen, but is continuously reconstructed through clues (breathing, stumbles, approaches, occasional touches). The space becomes a kind of unstable map, remade with each displacement, and the scene takes shape as a tension between physical presence and the absence of image.
By coupling movement and storytelling, the performance turns narrative into a field of instability. Personal stories emerge, break off, return; narrative layers accumulate without converging toward an explanatory center. When the performer bumps into someone, the incident does not function as an accident external to the work, but as a dramaturgical engine: the bodily encounter also becomes material for utterance—and the piece makes explicit how the perception of the other can quickly turn into interpretation, judgment, fantasy.
In the end, when the voice disappears without warning, the performance concludes its procedure with rigor: it offers no narrative closure, but returns the audience to their own bodies and to a heightened state of alertness. Silence is not rest, but an extension of the scene—a remainder of presence that persists. Nothing moves thus operates as a device of perception: by darkening the image and rendering the body invisible, it produces an experience in which movement and meaning do not stabilize, but only pass through.
Criação
[Conception]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães
Participação
[Performers]
Leandro Menezes, Miwa Yanagizawa, Rodrigo Lélis,
Valéria Rocha, Yara de Cunto