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O imortal
 

The immortal

Em O Imortal (2018-2019), o conto de Jorge Luis Borges deixa de ser apenas matéria literária e se converte em procedimento cênico: um dispositivo de oralidade, escuta e imaginação. A montagem parte da estrutura de camadas do próprio texto — uma princesa encontra um manuscrito escondido em volumes da Ilíada, e esse manuscrito narra a saga de um tribuno romano em busca de um rio que concede a imortalidade — para construir uma cena que opera como “transmissão” de narrativas, mais do que como representação clássica. A dramaturgia preserva o caráter labiríntico da escrita borgiana e aciona um modo de fruição onde o público acompanha uma história que se desdobra por dentro de outras histórias.

 

Um dos procedimentos centrais é o deslocamento do espetáculo para o território do "contar": a palavra não aparece como suporte secundário da ação, mas como ação em si. A encenação enfatiza que ler e escutar são experiências radicalmente distintas — e que, no teatro, o sentido não é retomável como na página: ele se dá em tempo real, atravessado por respiração, ritmo, hesitação e presença. Nessa perspectiva, a intérprete torna-se a figura-chave do acontecimento, mediando o texto de Borges e reorganizando suas densidades para o encontro com a plateia. O Imortal se constitui, assim, como um trabalho sobre a fragilidade e a potência da linguagem quando ela passa pelo corpo.

 

O espetáculo assume também uma economia material e uma atmosfera de proximidade (com público muito próximo à cena, livros em evidência e um espaço intimista) que fazem o imaginário do conto operar sem ilustração literal. A cenografia não “ambientaliza” a narrativa, mas estrutura um lugar para que o espectador fabrique mentalmente desertos, cidades e ruínas. Mesmo quando elementos extratextuais surgem (como o uso musical, por exemplo), eles não funcionam como adorno, mas como operadores de passagem: modulam o estado sensível da plateia e ajudam a tornar a narração uma experiência partilhada.

 

Ao trabalhar o tema da (i)mortalidade sem transformá-lo em tese, O Imortal inscreve no palco uma investigação sobre o tempo: o tempo das histórias que sobrevivem aos seus narradores, e o tempo dos corpos que precisam reencenar — a cada noite — uma travessia impossível. O percurso do personagem romano, sua obsessão e seu colapso diante da eternidade, aparecem menos como fábula filosófica e mais como experimento de imaginação: o espetáculo encena o paradoxo borgiano de que “saber-se imortal” pode ser terrível, não por excesso de vida, mas por dissolução de sentido. No limite, a montagem propõe uma ideia de permanência que não depende da duração infinita, e sim da capacidade de transmitir — de manter uma narrativa respirando no presente, diante de alguém que escuta.

In The immortal (2018–2019), Jorge Luis Borges’s short story ceases to be merely literary material and becomes a scenic procedure: a device of orality, listening, and imagination. The production draws from the text’s own layered structure—a princess finds a manuscript hidden inside volumes of the Iliad, and this manuscript tells the saga of a Roman tribune in search of a river that grants immortality—to construct a scene that functions as a “transmission” of narratives rather than as classical representation. The dramaturgy preserves the labyrinthine nature of Borgesian writing and activates a mode of reception in which the audience follows a story unfolding from within other stories.

 

One of the central procedures is the shift of the performance toward the realm of “telling”: the word does not appear as a secondary support to action, but as action itself. The staging underscores that reading and listening are radically distinct experiences—and that, in theatre, meaning is not retrievable as it is on the page: it unfolds in real time, traversed by breath, rhythm, hesitation, and presence. In this perspective, the performer becomes the key figure of the event, mediating Borges’s text and reorganizing its densities for the encounter with the audience. The immortal thus emerges as a work about the fragility and the power of language when it passes through the body.

 

The performance also embraces a material economy and an atmosphere of proximity (with the audience very close to the scene, books in plain view, and an intimate space) that allow the story’s imaginary to operate without literal illustration. The set design does not “stage” the narrative as an environment, but rather structures a place in which the spectator can mentally fabricate deserts, cities, and ruins. Even when extratextual elements appear (such as the use of music, for instance), they do not function as ornament, but as transitional operators: they modulate the audience’s sensorial state and help turn narration into a shared experience.

 

By engaging the theme of (im)mortality without turning it into a thesis, The immortal inscribes on stage an investigation of time: the time of stories that outlive their narrators, and the time of bodies that must reenact—each night—an impossible crossing. The Roman character’s journey, his obsession, and his collapse before eternity appear less as a philosophical fable than as an experiment in imagination: the performance stages the Borgesian paradox that “knowing oneself to be immortal” can be terrifying—not due to an excess of life, but due to a dissolution of meaning. Ultimately, the production proposes an idea of permanence that does not rely on infinite duration, but rather on the capacity to transmit—to keep a narrative breathing in the present, before someone who listens.

Texto

[Text]
Baseado no conto “O Imortal”, de Jorge Luis Borges

[Based on the short story “The Immortal”, by Jorge Luis Borges]

Dramaturgia

[Dramaturgy]
Adriano Guimarães, Patrick Pessoa

Direção

[Direction]
Adriano Guimarães

Codireção

[Co-direction]
Fernando Guimarães

Elenco

[Cast]
Gisele Fróes

Direção de movimento

[Movement direction]
Marcia Rubin

Cenografia

[Set Design]
Adriano Guimarães, Ismael Monticelli

Figurino

[Costume design]
Gisele Fróes

Desenho de luz

[Lighting design]
Dalton Camargos

Fotografia [Photography]
Ismael Monticelli

Consultoria teórica

[Theoretical consultancy]
Alexandre Costa

Direção de produção

[Production management]
Bianca De Felippes / Gávea Filmes

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