



Quadrado
Square
Quadrado (2014-2015), realizada a partir de Quadrat 1 + 2, de Samuel Beckett, situa-se entre a dança e a performance. Apresenta quatro quadros em que a cena/paisagem é resultado das possibilidades físicas e decisões momentâneas dos intérpretes: as mínimas ações individuais, mesmo que isoladas, constituem o coletivo. Essa descrição revela o coração do procedimento: a peça se funda numa gramática do mínimo, em que a dramaturgia não “conta” algo, mas organiza condições para que algo aconteça — um desenho de trajetórias, encontros e desencontros, uma geometria em movimento. O quadrado deixa de ser figura e se torna ética: delimita, controla e simultaneamente expõe a fragilidade de qualquer tentativa de coordenação entre corpos.
O que a montagem radicaliza, portanto, é a dimensão política e perceptiva do dispositivo beckettiano: a forma como regra que não garante sentido, mas o suspende. Em Beckett, o procedimento frequentemente instala personagens em sistemas fechados (trajetos, repetições, comandos), revelando a tensão entre insistência e falha. Em Quadrado, essa lógica retorna como “física do coletivo”: os intérpretes compartilham um mesmo enquadramento, mas não necessariamente um mesmo tempo interno; parecem compor uma unidade enquanto, ao mesmo tempo, preservam uma solidão estrutural. O coletivo aqui não é harmonia; é fricção — a coexistência de ações mínimas que, sem se anularem, produzem uma paisagem comum.
O resultado é um trabalho em que a coreografia funciona como pensamento e o pensamento como imagem. Ao instaurar um campo de decisões momentâneas dentro de um desenho rigoroso, Quadrado evidencia o que há de mais contemporâneo em Beckett: a cena como máquina de atenção, em que o espectador é convocado a observar variações quase imperceptíveis — o desvio, a pausa, o atraso, a hesitação. Com isso, o espetáculo afirma sua potência crítica não por enunciar uma mensagem, mas por construir um regime de percepção: uma experiência em que a relação entre individual e coletivo se dá menos pela narrativa e mais pela forma, pela repetição, pelo limite, pelo espaço.
Square (2014–2015), created from Samuel Beckett’s Quadrat 1 + 2, unfolds between dance and performance. It presents four tableaux in which the scene/landscape results from the performers’ physical possibilities and moment-to-moment decisions: minimal individual actions, even when isolated, constitute the collective. This description reveals the core of the procedure: the piece is grounded in a grammar of the minimal, in which dramaturgy does not “tell” something, but rather organizes the conditions for something to happen—a drawing of trajectories, encounters and disencounters, a geometry in motion. The square ceases to be a figure and becomes an ethic: it delimits, controls, and at the same time exposes the fragility of any attempt at coordination between bodies.
What the staging radicalizes, therefore, is the political and perceptual dimension of the Beckettian device: form as a rule that does not guarantee meaning, but suspends it. In Beckett, the procedure often installs characters within closed systems (paths, repetitions, commands), revealing the tension between insistence and failure. In Square, this logic returns as a “physics of the collective”: the performers share the same frame, but not necessarily the same internal time; they seem to compose a unit while, at the same time, preserving a structural solitude. The collective here is not harmony; it is friction—the coexistence of minimal actions that, without canceling one another out, produce a common landscape.
The result is a work in which choreography functions as thought, and thought as image. By establishing a field of momentary decisions within a rigorous design, Square highlights what is most contemporary in Beckett: the scene as a machine of attention, in which the spectator is invited to observe almost imperceptible variations—deviation, pause, delay, hesitation. In this way, the performance asserts its critical force not by stating a message, but by constructing a regime of perception: an experience in which the relationship between the individual and the collective takes place less through narrative and more through form, repetition, limit, and space.
Direção
[Direction]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães,
com colaboração de [with collaboration by] Giselle Rodrigues
Elenco
[Cast]
Edson Beserra, Lavinia Bizzotto, Leandro Menezes, Lina Frazão, Rafael Alves, Valéria Rocha
Cenografia
[Set design]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães, Ismael Monticelli
Iluminação
[Lighting design]
Dalton Camargos
Figurino
[Costume design]
Cyntia Carla
Fotografia
[Photography]
Diego Bresani, Emilia Silberstein, Ismael Monticelli