


Vestido de noiva
The wedding dress
Décio de Almeida Prado considerou Vestido de noiva o marco inaugural do teatro brasileiro moderno. Escrita por Nelson Rodrigues em 1942, a peça organiza seu conflito na dissolução de três planos de ação — memória, alucinação e realidade. Alaíde, a protagonista, após sofrer um acidente de carro, oscila na sala de cirurgia entre lembranças e delírios que atravessam família, amor e casamento.
A montagem desse texto emblemático marca, em 1994, o primeiro enfrentamento dos Irmãos Guimarães com uma dramaturgia de estrutura fechada e inaugura uma longa respiração com a obra rodrigueana.
A encenação assume a forma de uma ocupação site specific — gênero-suporte-procedimento sistematizado pelas artes visuais, no qual arquitetura e espacialidade preexistentes determinam a criação. Nesse caso, o vasto foyer do Espaço Cultural Renato Russo configurava o campo cênico, e os elementos visuais afirmavam-se como partículas performativas.
Na área externa, um automóvel estacionado na Avenida W3, sob o qual jazia um manequim, funcionava como instalação-prólogo, antecipando o acidente que estrutura a narrativa. De volta ao interior, Alaíde era conduzida em um carro-plataforma sobre rodas: seu movimento pelo espaço era subtraído. O dispositivo operava simultaneamente como pista de seu delírio, indício de sua incapacidade de se deslocar com autonomia e reafirmação do estatismo como operador de sentido — traço já presente nas primeiras investigações cênicas do coletivo.
Aos três planos dramatúrgicos agregavam-se elementos simbólicos: portas demarcavam o plano da memória; uma passarela estruturava a alucinação; e a realidade constituía aquilo que restava do cenário. Nesse arranjo, a realidade como sobra abria frestas metalinguísticas, tensionando os próprios regimes de representação.
Décio de Almeida Prado considered The Wedding Dress the inaugural landmark of modern Brazilian theatre. Written by Nelson Rodrigues in 1942, the play structures its conflict through the dissolution of three planes of action — memory, hallucination, and reality. Alaíde, the protagonist, after suffering a car accident, oscillates in the operating room between recollections and deliriums involving family, love, and marriage.
The staging of this emblematic text marks, in 1994, the Guimarães Brothers’ first confrontation with a closed-structure dramatic work and inaugurates a long, sustained engagement with Rodrigues’ oeuvre.
The production takes the form of a site-specific occupation — a genre/support/procedure systematized by the visual arts, in which preexisting architecture and spatial conditions determine creation. In this case, the vast foyer of Espaço Cultural Renato Russo, Brasília, Brazil, configured the scenic field, and visual elements asserted themselves as performative particles.
In the exterior area, a car parked on W3 Avenue, with a mannequin lying beneath it, functioned as a prologue-installation, anticipating the accident that structures the narrative. Back inside, Alaíde was transported on a wheeled platform-car: her autonomous movement through space was removed. The device operated simultaneously as a trace of her delirium, an indication of her inability to move with clarity, and a reaffirmation of statism as a generator of meaning — a trait already present in the collective’s earliest scenic investigations.
Symbolic elements were added to the three dramaturgical planes: doors demarcated the plane of memory; a catwalk structured hallucination; and reality consisted of what remained of the set. In this configuration, reality as residue opened metalinguistic fissures, tensioning the very regimes of representation.
Texto
[Text]
Nelson Rodrigues
Direção, cenografia, figurino e sonoplastia
[Direction, set design, costume design and sound design]
Adriano Guimarães, Fernando Guimarães
Elenco
[Cast]
Adriana Mariz, Ana Cristina Bugni, André Mendes, Bidô Galvão, Carmem Moretzsohn, Claudia Andrade, Cláudio Holanda, Dora Wainer, Felipe Kannenberg, Gê Martu, Guilherme Reis, Iolanda Pereira, Isabela Nogueira, Lucinaide Pinheiro, Marisa Vargas Mendes Campos, Mauro Horta, Willian Alves
Coreografia
[Choreography]
Yara de Cunto, Andréa Horta
Iluminação
[Lighting design]
Dalton Camargos, Hugo Bellingrodt
Fotografia
[Photography]
Ricardo Junqueira